Sou do tempo da vitrola. Tive muiiiiiitos discos (guardo alguns, até hoje). Tenho hoje muuuiiiitos CDs. Também já estou pensando em quais deles vou guardar para que, um dia, minha filha mais nova (6 meses) possa dar boas risadas, tentando compreender o ‘mundo ultrapassado’ em que o pai dela viveu.
Provavelmente, pouco vivenciarei desse cenário que, hoje, vejo com os olhos fechados (já entreabertos, apenas, na verdade) - em especial, vivendo no Brasil. Por aqui, ao que parece, muito lentamente, apenas, os ‘guichês locais’ das grandes gravadoras vêm recebendo ‘autorização’ para adentrar no século XXI. Em regra, continuam ‘em algum lugar do passado’, reclamando da pirataria, da queda das vendas de CDs etc., etc., etc.
A ABPD (Associação Brasileira de Produtores de Disco) divulgou na última semana o relatório de vendas em 2005, no país, apontando quedas de 20% (em unidades) e de 13% (em valores), em relação a 2004.
A ‘loja’ de downloads de música da Apple (iTunes Music Store), por outro lado, já ultrapassou, no início deste ano (2006), a marca de 1 bilhão de downloads de música pela Internet. Detalhe: downloads ‘legais’, pagos, rendendo dividendos a quem de direito – e com as bênçãos dessas mesmas gravadoras que, no ‘resto do mundo’ (aqui, por exemplo), continuam, predominantemente, reclamando, reclamando, reclamando.
No Brasil, não temos acesso à compra de músicas no site iTunes, da Apple (apenas 21 países têm acesso ao serviço, hoje; para ampliá-lo, novos acordos com as grandes gravadoras terão de ser firmados). Finalmente, ao menos, as ‘majors’ (como são conhecidas as grandes gravadoras) fecharam parceria com o site iMusica, para venda online de músicas, no Brasil. Por aquele site, segundo seu diretor, Felippe Llerena, são vendidas, hoje, cerca de 15 mil músicas por mês.
Ainda é pouco. Na ‘dura realidade’, como regra, continuamos a ter de escolher entre sermos lesados por produtos ‘piratas-piratas’ ou por produtos ‘piratas-legais’; afinal, convenhamos, cobrar o que se cobra por um CD, não deixa de ser ‘pirataria legalizada’ – algo bastante comum por aqui, aliás, onde agiotas e bancos ainda têm tratamentos tão distintos, para prestarem ‘serviços’ tão parecidos.
Enquanto isso, continuamos sendo alvos de coletâneas e mais coletâneas, regravações e mais regravações (por vezes, de gosto duvidoso), lixo e mais lixo, só porque simplesmente não se lança mais nada novo, por ser mais ‘seguro’ agir assim.
O CD, como hoje o conhecemos, está em vias de extinção. Ele está se transformando, rapidamente, no cassete de antigamente. Do CD até que eu gosto, como gostava dos ‘discões’ de vinil; o que entristece é ver o que esse mercado fez e continua a fazer com a música, com os artistas, com os compositores, com o público…