Dependência, independência, interdependência
A idéia que embala esse texto não é minha - alguma idéia teria, aliás, algum “dono exclusivo”? Salvo engano, eu a li em Stephen Covey, já há algum tempo.
Ao longo de nossas vidas, passamos por fases bastante distintas, relativamente às formas pelas quias nos relacionamos com as outras pessoas e com o mundo. Quando crianças, vivemos em situação de imensa dependência (basta pensar num bebê em relação, principalmente, à mãe, por exemplo). Pouco depois, na adolescência, em regra, buscamos o mais profundo rompimento com esse estado anterior, rumo à “plena independência”. Movimentos pendulares, nos quais transitamos entre extremos - toda a história da humanidade, aliás, parece ser uma grande compilação de registros dos movimentos desses “pêndulos” (nós, seres humanos, em nossas permanentes buscas).
Ultrapassados esses extremos, passamos ‘o resto’ de nossas vidas tentando nos adaptar a um contexto que parece nos evidenciar, a cada momento, que, de forma eqüidistante desses pólos anteriores, a vida é feita de interdependência: “A virtude está no meio”.
Pode-se pensar nisso por uma perspectiva agradável ou incômoda, parece certo.
“O inferno são os outros”, dizia Sartre, ante à constatação paradoxal de que, muito embora sejam “os outros” que nos impedem de ser ‘o que bem quisermos’, em plenitude, precisamos deles até mesmo para neles identificarmos a nós mesmos, por meio de nossas semelhanças e desigualdades. É inata ao homem essa necessidade de ‘pertencimento’ - a um grupo, a uma ‘tribo’, à própria humanidade.
Uma das palavras mais ‘em voga’, na atualidade, é “sustentabilidade” - ainda que pareça haver bem pouco consenso, mesmo entre os estudiosos do tema quanto a um ‘conteúdo adequado’ para o termo.
Em meio aos tantos avanços tecnológicos que conseguiu produzir em sua caminhada, o homem parece descobrir-se, agora, vitimado por sua própria volúpia, por sua insaciável “vontade de poder”, por seu desejo sempre maior de ‘estar no controle’ (da Terra, dos ‘outros’, da vida).
Nesse processo, também de forma paradoxal, mais e mais se evidencia que, quanto mais o homem busca ‘estar no controle’, mais ele se descobre incapaz de alcançá-lo. O imprevisível está sempre à espreita. Ainda bem, para todos nós, penso eu.
Nunca soubemos tanto sobre o mundo, assim como nunca soubemos tão pouco sobre nós mesmos. Essa sensação de ‘pertencimento’ a que as reflexões de Sartre parecem conduzir em “Entre Quatro Paredes” vai-se tornando uma angústia cada vez maior, na medida em que o isolamento em que nos inserimos, em plena ‘era da comunicação’, parece só fazer aumentar.
Generalizações são sempre impessoais e errôneas; ainda assim, ao que parece, pode-se claramente perceber que ainda não descobrimos como viver em interdependência - por mais necessário que se faça esse aprendizado.
Escrevo as coisas que escrevo (neste texto e em todos os outros) porque penso que esse aprendizado não seja um ‘destino’, mas, sim, um processo - e os textos (e intertextos por eles gerados) nada mais são do que partes de um processo contínuo: vida.
Para um professor, esse processo contínuo (vida) se apresenta como uma escola completa, onde não há ‘provas finais’, nem ‘diplomas’ (como talvez não devesse haver na escola ‘convencional’, aliás). Nesse cenário, poucas ‘personas’ parecem mais sedutoras, aliás, do que a do professor - desde que se compreenda, por certo, que a ele não cabe ‘ensinar saberes’ (que não se transmitem por meras informações, mas, sim, se adquirem por meio de experiências, para as quais, quando muito, o professor poderá contribuir), mas, sim, ressaltar em cada companheiro de vivência (’aluno’, como se costuma dizer no cotidiano), a importância e a beleza da busca pelo parendizado constante.
Penso, assim, que o conhecimento não deveria ser visto, pensado e buscado como uma conquista individual, mas, sim, como o resultado das vivências e aprendizados de cada um de nós, revertendo em prol de todos, em interdependência - um ‘estágio novo’ de nossa caminhada, em que possamos superar as completas dependências e, ao mesmo tempo, abandonar o ideal utópico e por vezes mesquinho de plena independência.