Tango (”Coisa do passado”)

5 de Junho de 2008

O tango nasceu como forma de expressão característica das populações pobres, do subúrbio de Buenos Aires. Depois, passou a ser conhecido como música típica dos bordéis. Mais tarde (no início do Século XX), foi levado a Paris, onde, por sua originalidade, exotismo e sensualidade, foi recebido como uma verdadeira febre. Gardel foi, provavelmente, seu primeiro grande expoente, até morrer de forma trágica - perfeita, para o contexto do tango! - num acidente aéreo, no auge de seu sucesso, em 1935. Foi na década de 50, no entanto, com Piazzolla, que o tango ganhou dimensão musical maior. Libertango. É preciso ouvir. Ao lado da música, em si, o tango é dança. Quem já assistiu a um espetáculo desses, jamais se esquece - como não se esquece de um “Perfume de mulher”.
Mais do que tudo isso, talvez, o tango seja sentimento, que transborda em harmonia, melodia, ritmo, coreografia, estética - “coisas” que andam um tanto “fora de moda”, hoje em dia. “Coisas do passado” - e “coisas do passado”, para alguns, devem ficar no passado. Talvez seja melhor assim, ao menos para aqueles que não sabem fazer do presente se não uma eterna fuga - de si mesmos, em especial. Noutros tempos, diria que isso é uma pena; não digo mais. Simplesmente, não me importa mais - e isso é muito bom.

It was 40 years ago today

1 de Junho de 2007

Hoje é aniversário da música.
Também pode ser aniversário da criatividade, da inovação, da qualidade, da ousadia, da beleza, da poesia. Hoje é aniversário de toda um legião de pessoas que valorizam essas ‘coisas’ todas.
Hoje. 40 anos de “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, o disco que mudou os rumos da música ‘pop’, do rock, do psicodelismo, da arte.
O disco a partir do qual os Beatles tornaram-se, exclusivamente, uma ‘banda de estúdio’, abdicando dos shows, graças à inexistência, à época, de tecnologia suficiente para que se reproduzisse em shows ao vivo todos os arranjos que eles produziam em estúdio. Não que no estúdio os recursos fossem ‘maravilhosos’: Sgt. Pepper’s foi totalmente gravado em máquinas mono, de 2 e 4 canais. 40 anos depois, mesmo em termos técnicos, difícil pensar em um trabalho ‘pop’ mais sofisticado e, menos ainda, mais bonito.
Não pretendo ‘descrever’ ou ‘comentar’ o Sgt. Pepper’s, aqui, até porque, isso seria absolutamente desnecessário. É só um ‘parabéns’, mesmo. Apenas um registro de uma das datas mais significativas para a história da cultura que nos forjou, até aqui.

Dependência, independência, interdependência

31 de Maio de 2007

A idéia que embala esse texto não é minha - alguma idéia teria, aliás, algum “dono exclusivo”? Salvo engano, eu a li em Stephen Covey, já há algum tempo.
Ao longo de nossas vidas, passamos por fases bastante distintas, relativamente às formas pelas quias nos relacionamos com as outras pessoas e com o mundo. Quando crianças, vivemos em situação de imensa dependência (basta pensar num bebê em relação, principalmente, à mãe, por exemplo). Pouco depois, na adolescência, em regra, buscamos o mais profundo rompimento com esse estado anterior, rumo à “plena independência”. Movimentos pendulares, nos quais transitamos entre extremos - toda a história da humanidade, aliás, parece ser uma grande compilação de registros dos movimentos desses “pêndulos” (nós, seres humanos, em nossas permanentes buscas).
Ultrapassados esses extremos, passamos ‘o resto’ de nossas vidas tentando nos adaptar a um contexto que parece nos evidenciar, a cada momento, que, de forma eqüidistante desses pólos anteriores, a vida é feita de interdependência: “A virtude está no meio”.
Pode-se pensar nisso por uma perspectiva agradável ou incômoda, parece certo.
“O inferno são os outros”, dizia Sartre, ante à constatação paradoxal de que, muito embora sejam “os outros” que nos impedem de ser ‘o que bem quisermos’, em plenitude, precisamos deles até mesmo para neles identificarmos a nós mesmos, por meio de nossas semelhanças e desigualdades. É inata ao homem essa necessidade de ‘pertencimento’ - a um grupo, a uma ‘tribo’, à própria humanidade.
Uma das palavras mais ‘em voga’, na atualidade, é “sustentabilidade” - ainda que pareça haver bem pouco consenso, mesmo entre os estudiosos do tema quanto a um ‘conteúdo adequado’ para o termo.
Em meio aos tantos avanços tecnológicos que conseguiu produzir em sua caminhada, o homem parece descobrir-se, agora, vitimado por sua própria volúpia, por sua insaciável “vontade de poder”, por seu desejo sempre maior de ‘estar no controle’ (da Terra, dos ‘outros’, da vida).
Nesse processo, também de forma paradoxal, mais e mais se evidencia que, quanto mais o homem busca ‘estar no controle’, mais ele se descobre incapaz de alcançá-lo. O imprevisível está sempre à espreita. Ainda bem, para todos nós, penso eu.
Nunca soubemos tanto sobre o mundo, assim como nunca soubemos tão pouco sobre nós mesmos. Essa sensação de ‘pertencimento’ a que as reflexões de Sartre parecem conduzir em “Entre Quatro Paredes” vai-se tornando uma angústia cada vez maior, na medida em que o isolamento em que nos inserimos, em plena ‘era da comunicação’, parece só fazer aumentar.
Generalizações são sempre impessoais e errôneas; ainda assim, ao que parece, pode-se claramente perceber que ainda não descobrimos como viver em interdependência - por mais necessário que se faça esse aprendizado.
Escrevo as coisas que escrevo (neste texto e em todos os outros) porque penso que esse aprendizado não seja um ‘destino’, mas, sim, um processo - e os textos (e intertextos por eles gerados) nada mais são do que partes de um processo contínuo: vida.
Para um professor, esse processo contínuo (vida) se apresenta como uma escola completa, onde não há ‘provas finais’, nem ‘diplomas’ (como talvez não devesse haver na escola ‘convencional’, aliás). Nesse cenário, poucas ‘personas’ parecem mais sedutoras, aliás, do que a do professor - desde que se compreenda, por certo, que a ele não cabe ‘ensinar saberes’ (que não se transmitem por meras informações, mas, sim, se adquirem por meio de experiências, para as quais, quando muito, o professor poderá contribuir), mas, sim, ressaltar em cada companheiro de vivência (’aluno’, como se costuma dizer no cotidiano), a importância e a beleza da busca pelo parendizado constante.
Penso, assim, que o conhecimento não deveria ser visto, pensado e buscado como uma conquista individual, mas, sim, como o resultado das vivências e aprendizados de cada um de nós, revertendo em prol de todos, em interdependência - um ‘estágio novo’ de nossa caminhada, em que possamos superar as completas dependências e, ao mesmo tempo, abandonar o ideal utópico e por vezes mesquinho de plena independência.

Voz & Violão

30 de Janeiro de 2007

Desde 11/2006 não tenho mais uma banda.

Uma pena, pois eu realmente gostava da banda da qual fiz parte, por 5 anos.

De lá para cá, passei a me apresentar apenas no formato Voz & Violão, sozinho, com um repertório totalmente baseado em “clássicos” do pop/rock internacional (Beatles, Stones, Elton John, Rod Stewart, Pink Floyd etc.). Já me apresentava assim, mas com freqüência bem menor, pois a prioridade era a banda. Agora, sem banda, centrei foco nesse trabalho.

Adoro o que faço. Toco o que gosto e, pelo que tenho visto, muita gente também gosta dessas mesmas músicas. Mais ainda, tenho tido um enorme prazer em perceber algumas reações muito interessantes do público.

Primeiro, esse show tem confirmado uma antiga “tese”: só há dois tipos de música: boa ou ruim - seja ela em inglês ou em português, seja ela pop, rock, blues, mpb ou o que for.

Segundo, quando as músicas são boas, não há “fora de moda” que as impeça de tocar e de agradar às pessoas que a escutam, afinal, quase nada daquilo que toco está entre os “sucessos do momento”.
Terceiro, as pessoas continuam se emocionando com a música - e esse é o principal efeito que música pode provocar nas pessoas: emoções.

Acabo de voltar de 3 dias de shows em Monte Verde/MG, no Deck (abraços a toda a equipe!), onde me apresento há três anos, em regra, nos “feriados prolongados”.

O público, na maioria, era formado por casais, numa faixa etária ao redor dos 30/40 anos. Assim, dei mais destaque a canções que, creio, de uma forma ou de outra, compuseram “trilhas sonoras” das vidas de boa parte daquelas pessoas, nesse momento da vida. Acho que “deu certo”.

A reação das pessoas foi absolutamente emocionante. O silêncio era tal, durante as canções, que se podia ouvir os grilos cantando, no pequeno lago, ao lado do Deck. Abraços, cumprimentos, contatos.
Gente querendo conversar, contar algumas histórias, ouvir outras. Enfim, momentos de intenso prazer e alegria, para um ‘andarilho’ como eu que, mais do que cantar canções, busca, justamente, tocar pessoas com essas mesmas canções.

Até breve.

Que dizer do amor?

24 de Agosto de 2006

“Eu te amo porque te amo. Amor é estado de graça e com amor não se paga.” (Carlos Drummond de Andrade, em “As sem razões do amor”).

Que dizer do amor, depois que tantos, como Drummond, o cantaram e contaram de forma tão maravilhosa? Difícil, sem dúvida.

A “amar se aprende amando” (título de obra do mesmo Drummond). Estou tentando. Sinto algo intenso, imenso e inexplicável, a que chamo amor. Talvez o seja - com todas as imperfeições que empresto a tudo o que vivo; talvez seja outra coisa, de tão imperfeito que é. De qualquer forma, é o que de melhor trago em mim. Por isso, chamo de amor.

Amor, imagino, seja algo incondicional. Não consigo chegar a tanto. Sofro (e muito) pelas ‘condições’ que atribuo ao meu amar. ‘Exijo’ de quem amo - e talvez isso faça com que o meu amor seja menos do que amor. Algo imperfeito, como eu mesmo; mas, ainda assim, verdadeiro. O melhor de mim, por menos que isso possa representar.

Minha vida é dedicada às pessoas que eu amo (com todos os acertos e erros que isso possa envolver). Não preciso nominá-las: elas saberão se identificar.

A isso chamo autenticidade, espontaneidade. Características que não suprem as limitações do meu amar imperfeito, bem sei; mas que podem, espero, minimizar os efeitos das imperfeições. Mais ainda, espero, traços que podem dar, às pessoas que amo, a certeza de que, ante minhas (tantas) imperefeições, estarei ‘apenas’ errando, quando as machucar.

Isso não ‘resolve’ as dores, não ‘apaga’ os machucados. Também sei.

Ainda assim, é o melhor que posso dar. Imperfeito? Sem dúvida. Como eu. Ainda assim, do meu jeito, amo. Intensamente. Verdadeiramente.

Às pessoas que eu amo - e que saberão se identificar, creio eu - deixo aqui mais uma declaração de amor. De alma. Com todas as imperfeições (e virtudes) que o meu amor (imperfeito) possa ter.

A 89 FM acabou

22 de Agosto de 2006

Tudo bem que, de “rádio rock”, a 89 FM, de São Paulo, já não tinha muito. Tudo bem, também, que há tempos ela fazia bem pouco além de reproduzir o mecanismo “jabaculesco” de tocar “só sucessos” - ao menos, eram “sucessos com guitarras”, na maioria das vezes…

Na década de 80, já assistimos ao fim da Fluminense FM (”a maldita”), do Rio de Janeiro - a maior das perdas, sem dúvida. No Estado de São Paulo, na década de 90, a 97 FM, de Santo André, também trocou as guitarras, à época, pelos “eletrônicos em geral”. Agora, a 89 FM, “sob nova direção” (leia-se, Rede Bandeirantes), contratou um ex-”diretor musical” (nome ‘bonitinho’ para um profissional encarregado de cuidar da programação meticulosamente conveniente e rentável das FMs) da Metroplitana FM (eeeeccaaa…). Como anda a nova programação? Sem comentários… Apenas para “ilustrar”, na página de entrada do site, hoje, destaques para a “Promoção Shakira” e para um “ex-paquito” e “capa da G Magazine”, que, em breve, participará de programa ao vivo na “nova 89 FM”.

Nada espantoso, na verdade, afinal, como qualquer empresa, “they’re only in it for the money”. De se lamentar mesmo, apenas, que o “ciclo reprodutor” continue “firme e forte”, como sempre: rádios horrorosas para um rebanho imenso de ouvintes amestrados. Nossas FMs mais parecem o “circo romano do Século XXI”: quanto mais horror, maior o interesse e o delírio da massa! Gente que acredita, até mesmo, que as “mais pedidas do dia” foram, de fato, as mais pedidas; gente que acredita que, de fato, são as rádios que bancam as promoções e os prêmios que entopem suas programações (viagens, ingressos para shows, cds, dvds etc.), ao mesmo tempo em que, coincidentemente, alguns artistas têm suas músicas tocadas por elas ‘N’ vezes ao dia.

Tenho uma filha “quase” adolescente que, para minha alegria, pediu uma guitarra de presente, há um ano - e hoje faz aulas. Por mais que eu não seja assim “tão fã” da Avril Lavigne, por exemplo, não tenho menor dúvida de que prefiro vê-la ouvindo a loirinha gringa de “tipo rebelde” (que compõe, toca e canta as próprias músicas) do que os “sucessos” da esmagadora maioria das nossas FMs. Fico imaginando o que ela pediria (ou, mais grave, o que ela teria para aprender, ao invés de música) se, ao invés da Avril Lavigne (por exemplo), ela ouvisse as “pérolas” que habitam as “paradas de sucesso” das nossas FMs…

“Desde pequenos nós comemos lixo” (Renato Russo). A 89 FM, agora, acaba de se transformar em mais um “delivery” desse mesmo lixo.

Música, tecnologia, mercado e… direito

22 de Agosto de 2006

Há dois meses, no texto “Downloads de música: a batalha continua”, falamos aqui do desejo das grandes gravadoras de criar suas próprias lojas virtuais de música, para vender downloads de arquivos musicais de seus artistas (áudio e vídeo). Segundo o colunista norte-americano John C. Dvorak, elas estariam insatisfeitas com a presença da Apple (via iTunes) nesse mercado, de forma tão destacada. Querem o monopólio de volta, seja da venda, seja dos números reais do mercado (mais importante ainda do que as vendas, aliás).

O blog do iBest divulgou, no último dia 10.08.06, a notícia de que a divisão da Sony encarregada do produto “Playstation” (agora não mais apenas uma plataforma de jogos, mas também disponível como um player de arquivos multimídia, o “Playstation Pocket”) está trabalhando muito forte nesse sentido e que só não colocou sua loja virtual ‘no ar’, até agora, por problemas de ordem tecnológica e jurídica (questões relativas às proteções de cópias digitais dos arquivos).

O iPod representou, mesmo, como se vê, um fenômeno de proporções inimagináveis, quando de seu lançamento. Muito mais do que um “Walkman do Século XXI”, o player de MP3 da Apple representou, de forma evidente, o quanto o mercado da música está se transformando, graças aos avanços da tecnologia.

Os desafios se multiplicam na mesma velocidade da tecnologia - e em tamanhos inversamente proporcionais aos players MP3, que proliferaram após o sucesso do iPod. Padrões de proteção a cópias digitais, padrões de arquivos multimídia a serem executados pelos aparelhos, padrões de fabricação dos aparelhos que os executarão. Divergências e incompatibilidades (técnicas e econômicas).

Como ‘pano de fundo’, autores, artistas, consumidores e… seus direitos.

Autores e artistas que merecem, querem e devem receber por seu trabalho - e que, ao mesmo tempo, precisam divulgá-lo, para que mais e mais pessoas o conheçam. Consumidores ávidos por novidades que o mercado ‘convencional’ há tempos não disponibiliza (e, quando o faz, o faz em ‘pacotes’ cheios de ‘adendos’ que o consumidor não quer, mas pelos quais tem de pagar, caso deseje ter acesso àquilo que realmente quer). Como ‘mídia’ (meio), a Internet.

Os direitos autorais, como os conhecemos até hoje, e como vêm tratados nas leis específicas de quase todo o mundo, de modo bastante similar, precisam de revisão. O ‘modelo’ que aí está é restritivo, centralizador, acraico e, mais grave, em grande medida ineficaz, já que, de uma parte, propicia mais direitos (e lucros) aos intermediários do que aos autores e artistas que deveria proteger; de outra, penaliza também aos consumidores, dificultando seu acesso à criatividade dos autores e artistas - quer pelos preços elevados deles cobrados pelos produtos ‘industrializados’, quer pelas restrições que acaba por impor a formas de distribuição mais racional, mais ampla e menos ‘enclausurada’ do que aquelas dos modelos atuais.

Creative Commons: licenças flexíveis, para um mundo menos ‘enclausurado’. Parece um caminho.

Até breve.

Venda de música por downloads continua a crescer

10 de Julho de 2006

O Blue Bus, um dois mais interessantes ‘diários’ sobre mídia da web brasileira, divulgou, hoje, que, segundo noticiado pela BBC, as vendas de música por download cresceram 77% no primerio semestre deste ano, nos EUA, enquanto as vendas ‘convencionais’ de CDs caíram 4,2%. Mais de 14 milhões de álbuns foram comprados, na íntegra, pela web - mais do que o dobro dos 6,5 milhões comercializados pelas vias tradicionais, no mesmo período.

Downloads de música: a batalha continua

25 de Junho de 2006

John C. Dvorak é um dos mais conhecidos colunistas de tecnologia, na atualidade. Afora o mau gosto explícito de defender PCs e criticar os Macs, tem idéias e opiniões que valem à pena conhecer.

Em artigo publicado originalmente em 28.09.05, na PC Magazine americana (e republicado na edição brasileira da mesma revista, neste mês, à página 35), Dvorak fala sobre a ‘nova batalha’ no campo dos downloads de música via iTunes.

Conforme relatado pelo autor, as grandes gravadoras, que tanto relutaram (e ainda relutam) em autorizar o comércio online de músicas sobre as quais detêm os direitos autorais, depois de perceberem a verdadeira ‘máquina de fazer dinheiro’ que esse nicho de mercado representa, estão revendo todo o cenário, principalmente sua parceria com o site da Apple, o iTunes.

Sob o argumento de que a Apple estaria ‘ganhando muito’ com o negócio (ela repassa às gravadoras 70 dos 99 centavos arrecadados a cada download!), as gravadoras têm se manifestado no sentido de que os 99 centavos, como preço único, não são o formato adequado. Lançamentos deveriam custar mais, segundo elas.

O discurso é inconsistente e, na verdade, procura desviar o foco da questão de fundo. Aumentando-se os preços, a tendência é a de que os jovens consumidores (alvo principal dos lançamentos) retornem ao ‘consumo de pirataria’, minando o negócio milionário da Apple - por paradoxal que pareça, como se verá mais adiante, lutar ‘apenas contra a pirataria’ poderia ser mais cômodo para elas do que o quadro atual desse mercado…

A intenção real das gravadoras, com essa fala sem propósito, como bem observa o colunista, não é a de ruir o negócio de venda de músicas online, como um todo, mas, sim, afastar a Apple do circuito - e, aparentemente, por uma razão bem mais sórdida do que uma eventual disputa pelos centavos por música.

Segundo avalia Dvorak, o problema ‘real’, para as gravadoras, parece estar no fato de que, ao permitir que um terceiro (a Apple) assuma posição tão relevante na cadeia de distribuição de seus produtos, torna-se mais difícil para elas ‘maquiar’ os números de vendas e, com isso, torna-se igualmente mais difícil manipular os resultados dos royalties que deverão ser pagos aos artistas.

O próprio autor cita as inúmeras demandas judiciais historicamente registradas entre artistas e gravadoras, nesse sentido, destacando que esses processos sempre demandaram auditorias complexas e caríssimas, dificultando a vida dos artistas que se sentissem lesados nessa contabilidade, já que as gravadoras sempre foram as únicas detentoras desses números, com base nos quais são recolhidos os direitos autorais dos artistas. No modelo do iTunes, não são mais.

Assim, começam a falar na implementação direta de sistemas online de venda de músicas, sem esse ‘terceiro indesejado’. Cada selo, nesse novo formato, teria sua própria loja virtual, eliminado-se, assim, quaisquer acessos aos números reais da comercialização, por terceiros.

Não fui eu quem disse isso: eu apenas concordo, fico feliz pelo fato de que alguém bem mais ‘notório’ o tenha feito e, ainda, por poder dividir com vocês, leitores deste blog, mais alguns ‘argumentos interessantes’ na luta pela sobrevivência da música, em meio a um mercado tão ’singelo’ quanto o que aqui se comentou brevemente, mais uma vez.

Até a próxima.

Privacidade é ou não um direito fundamental?

11 de Junho de 2006

Para quem quer que já tenha ‘passado os olhos’ sobre a Constituição Federal (e não escrevo apenas para profissionais do direito, mas para qualquer cidadão), a pergunta acima parece, no mínimo, tola. O inciso X, do art. 5., não poderia ser mais claro ao declarar invioláveis, dentre outros atributos, a intimidade e a vida privada das pessoas.

Ainda assim, lá vamos nós, entre os nossos sustos e surpresas, perambulando entre as soluções ‘de ocasião’ que se procura dar a problemas ‘de sempre’, na nossa Terra Brazilis.

A Folha de São Paulo, no último dia 04.06.06, veiculou notícia com o título “Governo quer vender dados dos paulistas”.

O projeto, apresentado um dia antes pelo Secretário de Estado Saulo de Castro Abreu Filho, autoriza que empresas particulares administrem e vendam a base de dados com a ficha pessoal de todos os cidadãos que tiraram documento no Estado. “Hoje, por lei”, diz a matéria, “o sigilo e a manutenção dos dados são responsabilidade do Poder Público”.

O objetivo primordial da medida é o de que, ao transferir tais dados a empresas privadas, por meio de licitação, a elas seja também transferido, juntamente com a possbilidade de comercialização dos arquivos, o ônus de digitalizar a base de dados, que conta hoje com cerca de 45 milhões de fichas datiloscópicas e 60 milhões de registros criminais (algo que, estima-se, custaria à empresa privada cerca de R$500 milhões de investimento inicial).

A comercialização desses dados para, por exemplo, empresas e seguradoras, permitirá claros ‘avanços’. Prefiro transcrever literalmente um trecho da notícia: “Com isso, uma loja poderá negar um serviço a alguém que já cumpriu pena por algum crime; uma seguradora de carros poderá descobrir que o cliente já registrou ocorrência de acidente de trânsito e aumentar o valor de uma apólice.”

Mais um trecho de transcrição, por sua relevância: “Um dos maiores problemas que deverão ser enfrentados com o repasse das informações dos cidadãos para o setor privado é o mesmo que envolve a base de dados de empresas de telefonia e da própria Receita Federal. Na rua Santa Ifigênia (região central de São Paulo), a poucos metros da sede da 1ª Delegacia Seccional da Polícia Civil, vendedores ambulantes negociam ilegalmente, por aproximadamente R$ 100, CDs piratas com dados pessoais –como endereço, CPF, renda anual e número de telefone.”

Com a objetividade que sempre tento emprestar aos comentários que aqui lanço, esse ‘projeto’ me parece simplemente assustador. Em nome de um ‘benefício à segurança pública’, patrocina-se um flagrante desserviço à segurança privada de cada um dos cidadãos, que terão seus dados ‘oficialmente esbulhados’. Nem preciso comentar o tamanho da inconstitucionalidade que me parece em tela - gritante, na verdade.

Não bastasse o público e explícito reconhecimento da incompetência do Estado para cuidar de um tema tão delicado e ‘tão público’ (dá para imaginar a ‘privatização da segurança pública’???), somos obrigados a nos ver como alvos uma proposta tão escandalosamente lesiva à cidadania - e patrocinada por quem, mais uma vez? Pelo próprio Estado, é claro.

Simplesmente abominável.